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Especialista em 'organizações criminosas' faz relato de como colocou o PCC no foco de sua pesquisa

Mônica Pinto Leimgruber conta, em conversa especial ao JTNEWS fatos históricos e chocantes registrados em livro de sua autoria, ocorridos em presídios do MS, protagonizados por membros do PCC

O JTNEWS recebeu em sua Redação na última semana de setembro próximo passado, mais especialmente no dia 26, a visita da pesquisadora, Mônica Pinto Leimgruber, para uma 'conversa especial', acerca de organizações criminosas com enfoque no Primeiro Comando da Capital (PCC). Ela que é doutora em Psicologia, policial penal no Mato Grosso do Sul, especialista em inteligência policial, bem como em psicologia jurídica e em gestão do sistema prisional, além de outras áreas do conhecimento.

Mônica Leimgruber atuou ainda no Ministério da Justiça e Segurança Pública de 2017 a 2018, e seu principal foco de atuação foi em estudos sobre organizações criminosas, inclusive é coautora e autora de livros nessa complexa área. Psicóloga (UCDB/MS), Bacharel em Direito (UNIDERP/ANHANGUERA), Doutora em Psicologia (USAL/Buenos Aires-Argentina), especialista em atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência (IPUSP/SP), pós-graduada em Terapia cognitivo-comportamental (ITCC/MS), especialista em psicologia jurídica (Unyleya), especialista em Gestão do Sistema Prisional (Liberalimes) e pós-graduada em inteligência policial (Unyleya). Policial penal da área de assistência e perícia desde 2003, Trabalhou nos jogos olímpicos e paralímpicos do Rio de Janeiro em 2016.

Como se observa, Leimgruber é detentora de um vasto currículo, e consequentemente uma ampla experiência nas áreas em que atua. A nossa conversa não foi programada pra ser uma entrevista em formato própria, mas realmente uma conversa especial em que este editor deixou a nossa ilustre visitante bastante à vontade para discorrer sobre o tema sem formalidades.

JTNEWS: Doutora Mônica Leimgruber, como você chegou a essa "trilha" de pesquisar e procurar entender as organizações criminosas no País, em especial com relação ao PCC? Como isso pode contribuir para o combate às organizações criminosas em nosso País?

ML: “Eu tenho história até engraçada, é sobre a minha entrada no sistema prisional, eu sou psicóloga, a minha primeira formação, e atualmente também sou bacharel em direito e meu primeiro trabalho foi dentro da delegacia de atendimento à mulher, numa área que atendia as crianças vítimas de violência e eu já tinha uma especialização em atendimento às crianças vítimas de violência pela USP, e eu queria permanecer nesse trabalho. Mônica Leimgruber é organizadora do livro "Direito, Psicologia e Psicanálise", além de também ser coautora do livro "Inteligência, Segurança Pública, Organização Criminosa".

Então, em Mato Grosso do Sul teve um concurso para psicólogos, para trabalharem na área da Secretaria de Assistência Social e ao mesmo tempo para trabalhar no sistema prisional; obviamente, eu nunca pensei em trabalhar no sistema prisional e queria ficar onde eu estava, que era no atendimento a crianças vítimas de violência, até porque eu sabia que logo mais nós iríamos ter a Delegacia especializada em crianças e adolescentes e aí o que ocorre? Eu acabei marcando o concurso e eu não sabia, mais era o mesmo material que você utilizava para ambos concursos, e aí eu olho no Diário Oficial e vi que eu caí no sistema prisional.

Liguei para uma grande amiga minha, minha melhor amiga de faculdade da psicologia e falei: amiga, você não sabe o que aconteceu! Eu 'marquei' para o sistema prisional, disse.

“Aí ela falou: como que você faz uma coisa dessas? Que burrice, mas Mônica...., e me deu uma lição de moral..., ai eu falei calma amiga... E ela não parava de falar, ai eu falei calma amiga, porque você também 'marcou' para sistema prisional e aí eu, ela e mais 35 psicólogos marcamos errado e caímos no sistema prisional..., e aí eu pensei: não tem jeito, o concurso é daqui dois dias e vamos estudar para sistema prisional, e aí a gente estudou dois dias, ela passou em sétimo lugar e eu passei em décimo primeiro lugar, eram nove vagas e duas pessoas não assumiram, então eu acabei ficando dentro das vagas, o estado demorou muito tempo pra chamar, o nosso concurso era de 2001 e eu fui chamada em 2003, mas ao final como ele foi prorrogado por mais dois anos, eles chamaram..., 35 psicólogos, aí o que acontece?

Quando eu entro no sistema prisional, eu não tive nenhum tipo de escola [entenda-se curso de formação inicial], não tive nenhum curso e eu já entrei para trabalhar dentro de uma cadeia, de um presídio, sem nunca na vida, nem na faculdade, eu não tive nem psicologia jurídica e não sabia o que era sistema prisional.

Eu sou uma pessoa que sempre gostei muito de estudar, venho de uma família de muita leitura, a minha casa, se um dia você tiver oportunidade conhecê-la Jacinto, e está convidado, é uma casa que tem muitos livros, e livros espalhados pela casa toda, minhas filhas leem muito, meus avós liam muito, meu avô morreu sabendo todo o dicionário, 96 anos, então a gente vem de uma história de muita leitura então eu falei: tá eu tô aqui e tenho que estudar isso, fazer o quê? Tenho que estudar isso e eu não sabia nada.

Dedicação ao estudo Prisional

JTNEWS: E então o que o sistema prisional lhe ensinou?

ML.: Dali eu comecei a estudar muito o sistema prisional. Então, entro em 2003 no sistema prisional de MS. Acabei aprofundando na questão psicológica, porque lá era dividido, os psicólogos que faziam assistência e os psicólogos que faziam perícia, eu sempre fui desse metier da avaliação psicológica e acabei indo para perícia e com essa questão de perícia a gente tinha que fazer atendimento ao presídio militar.

"No presídio militar, fazendo o atendimento lá, um dia eu precisei ir ao presídio militar e teve uma rebelião e eu trabalhava no presídio conhecido como "máxima", eu era do estabelecimento penal Jair Pereira de Carvalho, onde ficava os maiores criminosos e eu não entendia muito disso na época, mas esse presídio começou a receber alguns presos, aqueles presos, os primeiros que tinham esse viés do primeiro comando da capital e que já tinham histórico das megas rebeliões que ocorreram em São Paulo e que eles foram pulverizados no estado..., ocasião em que MS recebe um desses primeiros integrantes do PCC, e um deles até a gente recebeu lá era o Geleião [um dos primeiros líderes do PCC], na realidade que foi um dos fundadores do primeiro comando da capital (PCC)".

O clima esquenta no 'presídio' quando pensavam que o Geleião ia entrar

ML: Era 2005, eu estava sistema e ia atender no presídio militar e os presos acharam que o 'Geleião' ia entrar na 'máxima', na realidade ele estava nas dependências da Polícia Federal, mas os presos acharam que ele estava entrando na "máxima" e isso fez com que a cadeia virasse na termologia [comum do presídio], e aí teve uma rebelião em 2005, e eu vi pela primeira vez uma desorganização do Estado, então eu estava ali dentro da Companhia de Guarda que fica na parte superior da "máxima" e ali..., eu só vi os presos correndo e a sirene demorou a tocar, quem deveria tocar a sirene demorou a tocar, não tinha munição, não tinha policial.

Nesse momento "soltam-se" os presos militares, eu ficava [dizendo] meu Deus! Como soltar os presos militares, eu só lembrava que os presos militares eram muito perigosos, só que eu lembrava que atendia eles e eu falei meu Deus! Como é que eles vão soltar os presos militares? E agora e eu fiquei naquele meio, o que fazer? Mas fiquei calma, soltam os presos militares, e eles não têm munição, todo mundo corre, corre... Aí [...] aquela falta toda de gestão, de como gerir, de fazer o gerenciamento daquela crise, os presos não sabiam o que fazer, eu sei que até atirar em um numa sala que estava a assistente social que era o primeiro dia de trabalho dela e uma psicóloga..., eles atiraram nessa sala e foi o próprio preso que abaixou a assistente social e por isso o tiro não pegou nessa assistente social.

Então uma total falta de gestão, de habilidade de gerenciamento de crise perante essa questão que seria a primeira crise voltada ao primeiro comando da capital.

Outra grave crise ocorre em Mato Grosso do Sul

JTNEWS, então o clima se acalma no MS, Mônica?

ML.: Aí a gente passa por uma outra crise muito grave em Mato Grosso do Sul, que foi a de 2006 que foi o dia de 'salve' de dia das mães, em que em Mato Grosso do Sul, já estava instituído [o PCC], eles já tinham nos interiores das prisões, o primeiro comando de MS, o PCMS, mas eles não estavam, eles não haviam se tornado o único, como é atualmente, com essa questão que teve o dia do "salve", MS acaba aderindo ao dia do "salve" e junto ao Paraná, o "salve" veio de São Paulo, no dia das mães São Paulo já estava tendo um monte de rebelião, já estava tendo vários ataques às delegacias, aos policiais; mas MS adere a essa rebelião e acaba indo pra TV nacional".

A cabeça do preso Fernando Elói transfroma-se em "bola de futebol"

ML.: Porque teve aquele episódio que se você lembrar [...] que é aquele..., em que tá até no meu livro, que eles cortam a cabeça de um preso que era o Elói, Fernando Elói, o preso que eu atendia, inclusive, fazem da cabeça dele, uma "bola de futebol", e eles apresentam essa cabeça em âmbito nacional na TV e quem se recorda desse episódio..., ocorre lá na penitenciária em que eu trabalhava, completou.

Policial Penal é torturado nesse fatídico episódio

ML.: O que muita gente não sabe é que antes deles fazerem tudo isso com Fernando Elói, eles colocaram um agente penitenciário [atualmente policial penal], eles fizeram várias torturas com ele, no sentido de que, antes de cortarem a cabeça, de fato, de Fernando Elói, eles lasquearam partes do corpo de Fernando, assaram e deram para nosso agente comer, tiraram o olho dele vivo ainda, também assaram e deram para o agente comer antes de fazer tudo isso, então o modo operantis daquela época do PCC, dos integrantes, era extremamente cruel, o que a gente tem aí, se vocês forem, quem faz todo esse histórico muito bem é feito é a Camila Dias, grande amiga minha e do Nicodemos que está aqui, Policial federal que inclusive é orientando dela no mestrado dele, ela faz um recorte muito bem feito no livro dela sobre PCC, hegemonia do poder e aí o que ocorre, isso tudo não vai pra TV, mas a cabeça de Fernando Elói vai, eu como perita fiz a avaliação de quem cortou a cabeça dele porque quando ele tava perto de sair, quem fez a perícia psicológica dele fui eu e eu lembro bem que ele falava pra mim: "doutora, a gente tinha que fazer isso doutora, porque eles mandaram, e a gente tinha que fazer" e pra mim eu não tive dificuldade nenhuma porque ele era um cara que já tinha trabalhado em açougue e o mais difícil pra mim Doutora foi a hora que eu tive que cortar lá, todas aquelas coisas de nervos e começou a esguichar sangue e isso que foi o mais difícil.

Então aí eu comecei a falar: cara, eles são muito frios, o que é ocorre na cabeça desses caras,que eles obedecem uma ordem friamente de alguém que eles nunca ouviram falar, que eles nunca estiveram junto E que independe do que for, essa ordem vai ser obedecida de uma maneira cruel e fiel, eu costumo dizer que depois de muitos anos estudando os salves do PCC, porque meu livro é baseado nos salves, eu coletei quase 7 mil páginas de salves do PCC,das quais eu entrava no sistema, eu entrava nas cadeias,o choque retirava os presos, eu entrava nas celas, quebrava as celas e pegava os materiais, não foi ninguém que pegou pra mim não, foi eu mesmo, e depois levava e trabalhava em cima deles, levei oito meses trabalhando,porque me serviu desses quase 7 mil, 4786 páginas, então assim, vendo tudo isso,eu vou dizer uma coisa, se a gente fizer uma brincadeira aqui entre nós três, de telefone sem fio, você vai me falar uma coisa e a informação que você me der, vai chegar diferente pra terceira pessoa, mas do PCC não chega, nunca, o salve é o mesmo, em qualquer parte que você estiver do país,e aí eu vou dizer do mundo, porque eles não estão só no Brasil,estão no Paraguai, Bolívia, Equador,tem alguma coisa no EUA e no México, eles estão em várias partes da Europa, então assim eles estão pulverizado.

Megarrebelião em Mato do Sul deixa o estado atônito

Como isso ocorre e quem é que tá por trás disso tudo? Quem é que faz com que essa mesma ordem chegue da mesma forma no país e no mundo? Eu como psicóloga comecei a me intrigar muito com isso. Em 2006, com essa questão da megarrebelião é que o [nosso] Estado MS, passa então, a ficar extremamente vulnerável e a não ter o que fazer perante aquele fenômeno, que era o Primeiro comando do Mato Grosso do sul e que eles só acabam com a rebelião no momento em que vem de São Paulo a ordem de parar e não porque de fato existia uma questão do enfrentamento. Quando tudo isso ocorre, o estado entra, obviamente, quando a gente fala no direito de calamidade pública e que você não precisa mais das licitações para poder pagar um monte de coisas e as prisões estavam destruídas.

Quando eu comecei, a gente conseguia atender os presos por meio de bilhetes, que eles chamavam de ‘Bereu’ e a gente respondia dessa forma. Foi tudo muito difícil, a reconstrução toda da própria estrutura foi toda muito difícil. A grande ideia foi pulverizar os presos do PCC, então eles foram espalhados pelo país todo. Na minha tese, eu dou todo um trato da própria psicologia e desenvolvo uma teoria depois, uma teoria minha na qual discordo do teórico que utilizei [Albert Bandura], que foi quem estudou o ataque às Torres gêmeas e pra mim fez mais sentido de estudar o PCC, pra mim quem mais poderia ser similar dentro da psicologia foi o Bandura, porque ele tem todo um estudo de porque os seres humanos agem em grupo agressivamente.

Por mais que falem que o PCC não é um grupo terrorista, eles causam sim um terror todo em uma nação e a sensação do que o terrorismo causa é muito similiar do que eles promovem em uma sociedade.

Pesquisadora emite opinião sobre RDD no Sistema Prisional

Eu acredito que o isolamento da comunicação é o caminho sim, importantíssimo pra gente combater a ação criminosa, porque essa possibilidade que eles tem de cada vez mais se comunicarem livremente é o que faz com que a gente tenha tanto crime dentro do sistema, quanto fora. E eles usam a internet, é muito grave isso, é um problema muito sério, imagina isso em um estado como o meu que faz fronteira com Bolívia e Paraguai, que são produtores de maconha e cocaína, o estado que faz com que entre pela fronteira e faz com que saia do estado para São Paulo e depois pra vários outros.

Acredito que a gente [policial penal]tem um poder de contribuição muito importante nesse contexto do combate ao crime organizado. Quando eu estive trabalhando na Diretoria da Inteligência do Ministério da Justiça, nós estávamos com o enfrentamento muito sério do crime organizado, porque em 2018 teve a morte do Gegê do Mangue do PCC, eu até estive nessa missão, fui até lá com uma equipe. E a mulher pra ir em uma missão dessa, ela tem que entender muito, diferentemente do homem. Eu era a única mulher do grupo e fui porque realmente no nosso país não existe ninguém que sabe mais sobre o PCC que eu [sic]. Eu não sou a pessoa que mais sabe de segurança pública... [de PCC sim]... Mas, porque eu estudei muito e nunca deixei de estudar. Eu estudo todas as organizações criminosas do país, que eu nem sabia que era mais de 70, mas o PCC... Concluiu Mônica Leimgruber para o JTNEWS.

O Papel do JTNEWS nesta reportagem, foi fazer a difusão do pensamento exposto por meio da pesquisadora Mônica Leimgruber, que é agente público [policial penal] licenciada do Estado de Mato Grosso do Sul. #inteligencia


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https://www.instagram.com/p/CVSpQhOLKIr/?utm_medium=share_sheet FONTE: https://www.jtnews.com.br/noticias/especialista-em-organizacoes-criminosas-faz-amplo-relato-acerca-de-como-colocou-o-pcc-no-foco-de-suas-pesquisas-11820.html#.YXDLVHICoKY.whatsapp



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